passageiros do tempo

Dalberto Christofoletti

    Mais de 20 anos depois do Regime Militar, nossa cultura está impregnada de autoritarismo. Avançamos pouco na construção de democracia participativa, assim as tensões explodem facilmente. Autoritarismo não funciona com os jovens de hoje, mas a autoridade pode ser construída num processo conjunto de bastante diálogo com aqueles que se pretende influenciar.

 

    Os recentes movimentos de contestação em diversas partes do mundo estão cercados pela aura de saudosismo e, ao mesmo tempo, evidenciam novas formas de posicionamento.


    Em certo sentido, trazem o vigor rebelde dos anos 60 e 70, porém acrescentam linguagens e ferramentas da modernidade, como o twitter, facebook, celular, sincretismo musical, montagens fotográficas etc. Pelo lado ideológico, o discurso ambiental seduz os jovens e, quando bem articulado com as questões sociais, pode produzir frutos políticos interessantes.


    Aqueles que protestam, notadamente jovens, são os “passageiros do tempo”, pois fazem a ponte da contestação das décadas passadas, onde era mais comum, para a atual, onde se acreditava que as mobilizações da juventude teriam acabado, o que evidentemente mostrou-se falso. São os herdeiros do “Maio de 68”, das passeatas estudantis no Brasil contra a ditadura, do movimento pelas Diretas e por aí vai...


   Sendo assim, é motivo de alegria esta efervescência de idéias e, portanto, afirmar que o movimento da USP se resumiu a questão da maconha é bobagem, pois o universo dos jovens é sempre maior do que qualquer tema único. E focar na discussão na “cannabis” parece ser mais uma tentativa de desqualificar todas as outras reivindicações dos estudantes como maior participação nas decisões, melhorias no campus e liberdade de cátedra.


   No Chile combate-se a privatização universitária, nos EUA a ditadura do mercado financeiro, nos países árabes clama-se por democracia, os europeus recusam-se a pagar a conta dos desmandos econômicos de seus líderes e no Brasil cobra-se ética na política.  “Ocupe Wall Street!” “Ocupa Sampa!” são alguns dos emblemáticos gritos de guerra. Assim a roda do compromisso com a cidadania gira muitas vezes sem um líder ou foco claro de origem. Se faz, fazendo...


   Os jovens desconfiam dos partidos e da política institucional, o que é compreensível, mas não podem esquecer que a sociedade civil, sozinha, desatrelada de qualquer forma de poder institucional produzirá avanços limitados. Na verdade, um tipo de poder deve complementar o outro, ainda que como consequência de confrontos.


    Mais de 20 anos depois do Regime Militar, nossa cultura está impregnada de autoritarismo. Avançamos pouco na construção de democracia participativa, assim as tensões explodem facilmente. Autoritarismo não funciona com os jovens de hoje, mas a autoridade pode ser construída num processo conjunto de bastante diálogo com aqueles que se pretende influenciar. A verdadeira autoridade só nasce dentro da cumplicidade, entre as partes. Fora disto, é ditadura, comum em muitas instituições.


   Só analfabetos em juventude podem chamar de “vagabundos” e invocar a “estética bandida” para se referir aqueles que protestam, pois os jovens estão realizando o mais difícil e precioso trabalho: a construção do futuro. Não são individualistas que sonham apenas com uma carreira em um banco. Afinal, nosso hino nacional, nos faz cantar: “Verás que um filho teu não foge à luta”.

Dalberto Christofoletti dalbertochristofoletti@gmail.com

Dalberto Christofoletti é professor de Geografia / Geopolítica e coordenador de projetos socioambientais. Atualmente, Dalberto foi vereador na cidade de Rio Claro (SP) na gestão entre 2013 - 2016

Seus textos são:

O dia ou os dias do Meio Ambiente? 5 de julho de 2015
Passageiros do Tempo 5 de julho de 2015

TRANSPARÊNCIA

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