valeu à pena?

por Joel Rufino dos Santos, O GLOBO

Sexta-feira, 1 de Maio de 2015

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Até o quarto interrogatório (sete, ao todo), negou tudo; depois assumiu o papel de revolucionário que conspirou e comandaria a revolução. Sabia que seu fim seria a forca.

 

    Quatro envolvidos se beneficiaram da delação premiada. A história guardou apenas o nome daquele que delatou em troca do perdão de sua dívida com o Tesouro. Que problemas constituíram a sedição de 1789-92?

 

    Havia, para começar, os impostos. O Estado colonial era, por definição, insaciável. Seu balanço de pagamentos em relação à metrópole era sempre deficitário. O da metrópole portuguesa em relação às metrópoles centrais (França, Holanda, Inglaterra...) replicava esse déficit. Os metais preciosos deixaram buracos no Brasil, igrejas e mosteiros dourados em Portugal, manufaturas e bancos na Inglaterra.

 

    Havia, em seguida, um desapontamento cotidiano. Ser português dava vantagem no comércio, na burocracia civil e militar, nos espaços de cultura, no acesso à Justiça e à alta hierarquia da Igreja. Ninguém nascido aqui era coronel, magistrado, bispo, acadêmico, contratador de arrecadação... Ninguém daqui acessava os aparelhos de contrabando, corrupção e prevaricação metropolitanos. Aos brasileiros desonestos, as migalhas. Aos honestos, seja lá o que isto quer dizer, a melancolia.

 

     A repressão aos cabeças do levante — que se daria no dia da cobrança de impostos atrasados, a derrama — fez duas vítimas fatais. O advogado, fazendeiro e poeta Cláudio Manuel da Costa, que se “enforcou” no vão de uma escada, depois de uma noite nas mãos do torturador Manitti. Dois séculos mais tarde, Wladimir Herzog poderia dizer: “Eu sou Cláudio Manuel”. E um certo alferes Joaquim José, por alcunha Tiradentes.

    Sua imagem conhecida é ideológica, construída quando os republicanos quiseram desafiar a monarquia — ele seria alto, bonito, bem vestido, aristocrático, cavaleiro andante, barbudão até na forca. A qualificação do réu, porém, o dá como branco, 42 anos, dono de cinco escravos, sem contar os de sua fazenda.

 

    É sensato imaginá-lo como os subtenentes ou sargentos PM, que vemos todo dia na cidade. Um “classe C”, atormentado pelo baixo salário e o risco de matar ou morrer a qualquer momento. Ele tentou vários jeitos de subir na vida: lavrador, tropeiro, arranca-dentes, inovador tecnológico (um novo sistema de coletar água para o Rio...). Como nada deu certo, entrou para a Polícia Militar, ou Tropa Paga de Minas

 

    Era politizado. Uma prova adicional contra ele foi andar com a Constituição americana na mochila, pedindo tradução a quem soubesse inglês. Outra foi de francesista, partidário das ideias iluministas que se realizariam na Revolução Francesa e na Independência Americana. Até o quarto interrogatório (sete, ao todo), negou tudo; depois assumiu o papel de revolucionário que conspirou e comandaria a revolução. Sabia que seu fim seria a polé ou forca.

 

    Dia 21 de abril, já sob o sol quente, caminhou no meio de padres, deslumbrantes cavalos, janelas e balcões enfeitados, para o Largo de São Domingos (hoje a Escola Municipal Tiradentes, Rua Luís de Camões). Um senhor espetáculo. Tinha as faces abrasadas, debaixo do capuz, pediu duas vezes, em vão, ao carrasco que fosse breve. Terá se indagado: valeu a pena?

 

    Vamos desenforcá-lo e desesquartejá-lo 223 anos depois.

Óleo sobre tela de Leopoldino de Faria retratando a Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte dos Inconfidentes (Câmara Municipal de Ouro Preto)

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